
A Teledramaturgia brasileira tem tomado um rumo oposto ao do cinema nacional. O cinema brasileiro desperta para o mundo com cineastas talentosos como José Padilha, os Salles e Fernando Meirelles. Já os folhetins, cada dia mais se tornam insuportavelmente trash e mal produzidos.
Comento especificamente sobre a novela Duas Caras, pois é a única que consigo assistir alguns capítulos. Já “Caminhos do Coração” é tão bizarra que pode ser comparada aos videos, “água” de Sheila Mello e “Cinderela Baiana” de Carla Perez. É um desenho animado ruim e inclassificável que infelizmente terá continuidade.
Em Duas Caras, é notável que o autor-estrela-chiliquento perdeu totalmente a mão na novela, e principalmente, sua capacidade de reinventar-se. Aguinaldo Silva repete a formula de Senhora do Destino, com o embate entre Renata Sorrah – que fez a ótima Nazareh Tedesco - e a barbie dos anos 80, Suzana Vieira.
No dramalhão, além das interpretações gritadas que não convencem, a exceção da talentosa Marília Pêra, o texto é fraco, sem alma e perdido. Existe uma essência pseudo-politicamente-correta que é trabalhada com amadorismo.
Nenhuma cena de Duas Caras se aproxima da delicadeza de Manoel Carlos ao fazer merchandising Social, como exemplo.
O personagem bonequinha de luxo Silvia, vivido por Alinne Moraes, que teoricamente é formada na Universidade de Sorbonne, França, parece uma adolescente desnorteada.
E por falar em academismos, a trama que se passa na suposta “Universidade Pessoa de Moraes” não supera os clichês da infinita Malhação.
José Wilker com figurino de gay-moderno, faz somente figuração entre Sorrah e Vieira. Antonio Fagundes merece um quadro no Zorra Total. Enfim, poderia escrever dezenas de laudas exemplificando o porque de Duas Caras ser uma das piores novelas dos últimos tempos.
Aguinaldo Silva herdou um coronelismo dos velhos autores de novela da Rede Globo. E, sob pressão, até ameaçou abandonar tudo e ir para Portugal. Mas logo se arrependeu e voltou.
Aguinaldo Silva poderia tentar virar roteirista de humor. Ri horrores com ele comparando sua novela à obra de Orson Welles. Ele diz que Duas Caras institui uma nova linguagem na TV. Sabe lá qual. No humor, poderia exercitar seus jargões de variações de anta: Anta-nordestina, anta-isso, anta-aquilo, anta-autor.
Ainda há luz:
João Emanuel Carneiro deu uma nova possibilidade para as novelas, seus dois sucessos, “Da Cor do Pecado” e “Cobras e Lagartos” deram um up na carreira do novelista. Ele agora escreve a próxima novela das 21.
Aguinaldo Silva está velho e preguiçoso. No fim da vida, poderia construir na ficção estórias bem menos decadentes e solitárias do que a dele.